A redação que começa com “desde os primórdios da humanidade”

7 min de leitura

Resumo

Uma leitura divertida sobre clichês, repertório e argumentos na redação do Enem, com estratégias práticas para escrever um texto próprio e coerente.

A redação que começa com “desde os primórdios da humanidade”

Existe uma frase que aparece em muitas redações como se tivesse recebido convite para todas as provas: “desde os primórdios da humanidade”. Ela chega antes do tema, cumprimenta o leitor e tenta explicar qualquer problema social desde a invenção do fogo. O problema não é a existência de uma introdução histórica. O problema é usar uma frase ampla para ocupar espaço sem apresentar o recorte que a proposta realmente exige.

A redação do Enem pede um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal, com defesa de um ponto de vista e proposta de intervenção. A Cartilha do Participante do Inep explica os critérios oficiais. Ela não manda o estudante usar frases mágicas, e muito menos promete nota por decorar um modelo.

Por que o clichê parece tão confortável?

Porque ele não exige uma decisão imediata. “Desde os primórdios” pode ser seguido por quase qualquer assunto. Só que uma introdução precisa orientar o leitor. Se o tema trata de um problema específico no Brasil, falar da humanidade inteira pode diluir justamente o recorte que deveria organizar o texto.

Faça um teste simples: retire a primeira frase e veja se a tese ficou mais clara. Se nada foi perdido, a frase era enfeite. Uma abertura eficiente pode começar pelo problema, por uma consequência observável ou por uma referência que você consiga explicar. Não precisa ser brilhante. Precisa levar o leitor até o ponto de vista.

O que uma tese precisa fazer?

A tese é a posição que o texto vai defender. Ela não deve apenas repetir o tema nem transformar o problema em uma opinião impossível de desenvolver. Uma tese útil delimita dois eixos que podem virar parágrafos de argumentação.

Imagine que a proposta discuta um obstáculo de acesso à informação. Uma tese ampla diria que “a sociedade precisa mudar”. Uma tese mais trabalhável pode apontar a combinação entre falhas de comunicação institucional e desigualdade no acesso a canais confiáveis. A segunda versão já sugere caminhos para os desenvolvimentos.

Antes de escrever, pergunte: quais são os dois aspectos do problema que vou explicar? Se a resposta for apenas uma palavra, como “preconceito” ou “tecnologia”, falta transformar o tema em raciocínio. O texto não precisa apresentar uma tese complicada; precisa apresentar uma tese que você consiga sustentar.

Repertório não é álbum de figurinhas

Um nome famoso não salva um parágrafo que não explica nada. O repertório funciona quando ajuda o leitor a compreender o argumento. Uma lei pode mostrar um direito ou uma obrigação. Um conceito pode organizar uma relação. Uma obra pode representar um conflito. Um dado oficial pode dimensionar uma situação, desde que você tenha segurança sobre sua origem e seu significado.

O repertório precisa conversar com o tema. Se você encaixa a mesma citação em todos os assuntos, o texto começa a parecer uma mala que recebe qualquer roupa, mesmo quando o tamanho não combina. Em vez de decorar dezenas de frases, escolha algumas referências e pratique três movimentos: apresentar a ideia, explicar sua relação com o problema e mostrar que consequência ela revela.

Nunca invente uma fala, uma estatística ou uma data para fazer a referência parecer mais sofisticada. Uma informação simples e correta é melhor do que uma citação impressionante, mas falsa. Quando não tiver certeza, use o conceito que você domina e explique-o com suas palavras.

Como construir um desenvolvimento que não fique parado

Um parágrafo de desenvolvimento precisa avançar. Comece apresentando o argumento. Depois, mostre como ele aparece no problema. Em seguida, use o repertório ou uma evidência e conecte essa informação ao tema. Feche explicando uma consequência ou preparando a passagem para o segundo eixo.

  • Afirmação: qual aspecto do problema será discutido?
  • Explicação: por que esse aspecto contribui para a situação?
  • Repertório: que conhecimento ajuda a iluminar a ideia?
  • Análise: como a referência se relaciona ao tema?
  • Consequência: quem é afetado e o que acontece se o problema continuar?

Essa sequência não é uma fórmula que deve aparecer como cinco frases iguais. Ela é uma lista de perguntas para verificar se o parágrafo tem raciocínio. Se você apenas nomear um problema e repetir que ele é grave, ainda não explicou seu mecanismo.

Coesão não é decorar “além disso”

Conectivos são placas de trânsito do texto. Eles mostram contraste, causa, consequência, conclusão e continuidade. Use a palavra que corresponde à relação real. “Entretanto” não serve para qualquer frase bonita; ele anuncia oposição. “Portanto” não deve aparecer só porque o parágrafo terminou.

Também revise as referências entre frases. Pronomes sem antecedente claro, repetições excessivas e mudanças bruscas de assunto fazem o leitor trabalhar mais do que deveria. Leia um parágrafo em voz baixa. Se você perceber que uma ideia saltou sem ponte, escreva uma frase de ligação ou reorganize a ordem.

Como evitar a conclusão genérica

A intervenção precisa responder ao problema discutido. A cartilha do Inep apresenta elementos que ajudam a verificar se a proposta está completa: agente, ação, meio de execução, finalidade e detalhamento. Esses elementos não devem virar uma lista mecânica. Eles precisam conversar com os argumentos.

Se o desenvolvimento mostrou falta de informação, uma proposta que apenas diz “o governo deve resolver” é vaga. Quem agirá? Por meio de qual programa? Para qual público? Em que espaço? Com que objetivo? Se você discutir uma dificuldade de acesso, a ação precisa enfrentar essa barreira específica, e não apenas desejar que “a realidade mude”.

Evite prometer uma nota. A redação é avaliada a partir do texto produzido, da relação com o tema e dos critérios oficiais. Uma estrutura ajuda a organizar o raciocínio, mas não substitui leitura, escolha de ideias e revisão.

O que fazer quando a frase pronta já está na ponta da caneta?

Não precisa entrar em pânico. Pare e pergunte o que a frase acrescenta. Se ela só diz que o problema existe há muito tempo, substitua-a por uma observação que identifique o recorte. Se você quer usar uma referência histórica, escolha um fato específico que consiga conectar ao tema. Se não houver conexão, comece diretamente pelo problema.

Você também pode treinar aberturas diferentes para o mesmo tema: uma baseada em consequência, outra em contraste e outra em referência cultural. Depois, escolha a que apresenta o ponto de vista com mais clareza. O exercício ajuda a abandonar a sensação de que existe uma única maneira correta de começar.

Como usar a Lexi sem terceirizar sua redação

A Lexi pode ajudar a transformar uma dúvida em uma sequência de estudo: explicar a diferença entre tese e argumento, propor perguntas para revisar um parágrafo ou montar um quiz sobre coesão. Peça explicações passo a passo e compare a resposta com a cartilha oficial e com o seu próprio texto.

Não peça uma redação pronta para copiar. O objetivo é entender decisões de escrita e produzir um texto autoral. A inteligência artificial pode cometer erros, interpretar mal uma proposta ou sugerir uma referência inadequada. Verifique as informações e mantenha a responsabilidade pela versão final.

Um treino curto para esta semana

  1. Escolha uma proposta de redação e escreva o recorte em uma frase.
  2. Formule uma tese com dois eixos de desenvolvimento.
  3. Selecione uma referência que você realmente consiga explicar.
  4. Escreva apenas um parágrafo, conectando referência e tema.
  5. Revise se o repertório tem função ou apenas enfeita.
  6. Reescreva a abertura sem usar uma frase genérica.

Depois, compare a primeira e a segunda versão. Procure clareza, não uma aparência artificialmente sofisticada. A redação melhora quando cada frase responde a uma necessidade do argumento. O leitor não precisa viajar até os primórdios da humanidade para entender seu ponto de vista; ele precisa saber, desde o começo, qual problema você está discutindo e por que ele importa.

Compartilhar este post

Compartilhe

Comentários

Ulearngo
Ferramentas para praticar questões, fazer simulados e revisar para provas.

A Ulearngo é independente e não é afiliada nem endossada por bancas examinadoras, órgãos públicos, universidades ou instituições de admissão.

Produtos

Estudar

Ajuda

Copyright © 2026 Ulearngo. Todos os direitos reservados.